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Vitrola De Ficha

written by: Iranilton Marcolino

@iraniltonmarcol

 

O valentão entrou no bar com passadas firmes. Vinha determinado.  Tinha os olhos bem abertos e virava-se de um lado para outro. No meio do salão, parou de frente a uma mesa onde estava sentado um homem segurando um copo.

- Eu não disse que você não ia parar de beber? Você é um cara sem palavra!

Pouca gente prestou atenção naquele sujeito que entrou no bar. O ambiente, um bar em uma região de muitos cabarés, já tinha sido palco de cenas inusitadas, como a mulher que veio, gritou e arrastou o marido bêbado, a fim de dar-lhe uma surra. De vez em quando, alguém subia em uma mesa para discursar. Ver alguém apagar por cima de copos e garrafas era algo corriqueiro.

O Bar do Tomé tinha um grande salão com velhas mesas, sujas e malcuidadas. Ninguém conhecia o homem que havia chegado, mas o bêbado com quem ele falava era frequentador do local. Costumava chegar no começo da noite e tinha o hábito de passar horas contando histórias e piadas, mesmo quando ninguém prestava atenção. Era fácil saber se estava bêbado: Passava a reclamar de tudo. Da mulher, da sogra, do cachorro. Nesses dias de bebedeira, saía de lá de manhã, depois de cochilos em almofadas largadas num sofá em um canto da cozinha.

- Não vai dizer nada? Não vai se defender, seu cínico?

O homem falava balançando o bêbado pelo ombro. O tal bebum até tentou levantar-se para protestar, mas não segurou o corpo. Caiu sentado na cadeira. Balbuciou algo e tentou fazer de conta que não era com ele. Olhou o copo vazio e pôs-se a correr os olhos pelo salão procurando o garçom.

- Mais uma, garçom!

Silêncio. O clima estava tenso. Ninguém ousava dizer nada, porque a cena já atraía os olhares. Num canto, um baixinho tentava se esconder atrás das garrafas largadas em uma mesa. O dono do bar levou as mãos à cabeça prevendo quebradeira. Não era a primeira vez que isso acontecia.

O movimento chamou a atenção da cozinheira, lá no fundo do salão. Até então, ela estava concentrada nos petiscos da freguesia. Acostumada ao vozerio, às gargalhadas que se misturavam à musica da vitrola de ficha, ela logo sabia quando as coisas estavam caminhando para a desordem. Abriu uma brecha na cortina de plástico que separava a cozinha do salão e pressentiu o pior. Foi embaixo da pia e pegou um pedaço de pau.

- Se os “beberrão” forem brigar, acabo rapidinho com esse chafurdo.

Não se pode dizer que era preocupação à toa. O homem que entrou no bar estava determinado a impressionar. Era claro que queria dar uma lição no amigo. Se é que se pode chamar assim...

O freguês encharcado de cachaça nem se tocou quando, com surpresa, todos viram o valentão subir numa cadeira e encher o peito para falar alto. Mas ele, que chegou sem qualquer sutileza, marejou os olhos com lágrimas, tremeu os lábios, e deixou a emoção tomar conta.

- Eu estou aqui em nome da família deste rapaz para fazer um pedido: Ele tem que parar de beber.  A bebida tá controlando a vida dele...

- É verdade! Aqui todo mundo só bebe socialmente – disse um homem magro, na mesa ao lado, tentando conquistar a confiança de quem mandava.

O bêbado alvo de toda confusão continuava alheio a toda movimentação.

- Garçom, ei Garçom! Outra dose...

Atendimento pronto e rápido. Naquele clima de tensão, contrariar qualquer um poderia precipitar a quebradeira. O garçom veio e deixou o copo quase cheio de cachaça. Fez tudo sem desgrudar os olhos do valentão, que, como se submetendo ao costume da casa, já estava em cima de uma cadeira.

- A paz de uma família não pode ser destruída pelo álcool. A mulher e os filhos desse meu amigo estão em casa, tristes, esperando que eu leve ele de volta... E vou fazer isso por bem ou por mal!

Desceu e voltou ao tom agressivo. Arrastou a cadeira e sentou de frente para o bêbado, pegou-o pela camisa, puxou pra junto de si, olhou bem dentro dos olhos e o devolveu ao assento, com um empurrão forte.

- Homem sem palavra!!

O valentão estava agora de pé, olhando para todos como dono da situação. A imagem do homem de bem!

Se ajeitava para começar de novo sua lição de moral quando uma pancada forte atingiu sua nuca. Uma porrada certeira, única. Nem teve tempo de ver a cara de sua agressora, a cozinheira, que segurava com as duas mãos um pedaço de pau junto ao peito, com leve sorriso nos lábios, as gordas bochechas brilhando vermelhas.

Por um instante, no bar não se ouvia nada. Parecia haver apenas o eco da pancada, fora o rangido do velho ventilador de teto. No chão, o valentão debruçado, com a cara enfiada no piso sujo, um filete de sangue desenhando um caminho aleatório no chão.

Não demorou muito e, na vitrola, alguém colocava uma ficha e pedia sua música. Num canto e outro, os copos iam se enchendo de bebida, garrafas eram esvaziadas. Sem que ninguém mandasse, três homens vieram e arrastaram o corpo do valentão para um pé de parede. Aos poucos, o murmúrio ia aumentando, o bar ganhando de novo um movimento animado.

A cozinheira, devagar, voltou para o posto de trabalho. Antes de atravessar a cortina, deu uma última olhada geral no salão. Não conseguiu esconder a satisfação. O ambiente era, de novo, só alegria. Suspirou aliviada. Finalmente, tudo voltava ao normal...

Iranilton Marcolino

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Iranilton Marcolino is a Brazilian journalist, amateur writer of fiction stories trying to show his work to world audience.
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