Eu Fui Uma Escrava, a short story by Marie Cadette Pierre-Louis at Spillwords.com
Danielle Macinnes

Eu Fui Uma Escrava

Eu Fui Uma Escrava

written by: Marie Cadette Pierre-Louis

@LouisCadette

 

Eu nasci para vencer o amor, e transformar a raiva numa raiva mais agradável e o sofrimento em arma forte. Às vezes, os horrores de meu passado se incorporam em luz no meu caminho. Meu nome é Oxum Lacruz, minha mãe me deu à luz em 1870, numa mina lá em Minas Gerais. Se eu não morri no dia do meu nascimento, ou mesmo antes disso, é que eu era uma semente fora do normal, um orixá, segundo a minha mãe. Nasci para vencer o mal, me disse ela.
Eu cresci pensando que um dia eu me tornaria uma grande revolucionária, esforçando-me a seguir os conselhos da minha mãe. Pode ser que minha mãe, se estivesse viva, ficasse com raiva de mim, por eu ter escolhido aquele rumo de mãe de filho sem pai. Então, eu lhe responderia: “E aí? Qual é o problema? Eu sou revolucionária em meu próprio jeito, né mãe?” (risos).
Eu sou filha de uma negra e de um branco. O branco que nem me conhece foi um dos estupradores da minha mãe. Para ser mais sincera, minha mãe era um objeto sexual, um instrumento que utilizavam quando quisessem. Seja triste ou não, foi assim que eu nasci. Eu sou negra e me sinto ainda mais negra quando estou praticando minha capoeira ou meu samba, comendo minha feijoada. Hoje em dia, a capoeira é declarada ilegal. Por isso, lá no quilombo São José Da Serra, onde eu moro, praticamos a capoeira e o samba às escondidas. Com o som do tambor já estamos nos reunindo, dançando e cantando.
Cinco anos atrás, eu não tinha nada, só a euforia de ser livre. Foi naquele dia que transei por amor pela primeira vez. E o meu filho foi a consequência dessa abolição. Naquele dia, Obá e Eu dormimos na rua sem pensar no que íamos fazer de nossas vidas. Não tínhamos nem trabalho, nem terra. Tudo o que sabíamos fazer era plantar e cultivar. Sem a terra, o que podíamos fazer para sobreviver? E essa pergunta se tornou a principal confusão para nosso futuro.
Do dia seguinte daquela abolição a dos meses, tínhamos caminhado por muitos lugares antes de eu chegar em São José Da Serra, onde eu ia encontrar uns negros que iam se tornar meus irmãos e irmãs. Eu passei três meses dormindo nos bosques, sem ajuda. Pensava em retornar na casa do senhor Renaldo Overeira. Mas, eu não podia, porque, além do sentido de horror que eu já tinha da escravatura, o meu estado de mulher grávida não me permitiu.
Cada passo à frente me fazia pensar na minha morte. As dores de cabeça e de barriga, os cheiros das carniças, até dos perfumes mais saborosos das flores me enchiam de raiva. De uma raiva por ter sido contente uma vez na minha vida e ver o meu amor desaparecer no dia da tristeza. Ele me deixou lá na mata sozinha e deu no pé como o vento que tinha me acariciado. Hmmm! Tantas histórias para contar… Eu me lembro então da minha mãe que foi separada de sua filha depois de ter assistido à morte daquele branco que tinha jogado esse esperma incrível no seu útero.
Desde a sua adolescência o Obed era o amor da minha mãe, e ele, como a minha mãe, cresceu no Brasil. E como eles, o amor andou crescendo. Obed viveu vendo o seu coração sendo estuprado, e isso era seu fardo, mas, ver sua mulher grávida era seu rancor e seu inferno. Fazia de tudo para vingar-se desse mal, no entanto, ele ia recuperar sua alegria só após 10 anos, quando encontrou o meu pai. A consequência desse encontro foi, primeiro, o assassinato do meu pai branco pelo Obed. E, logo, o Obed e minha mãe foram mortos pelo senhor Joaquim, que era o último senhor da minha mãe e meu tio colonizador, infelizmente.
Eu fui vendida para o senhor Renaldo Overeira quando eu tinha apenas 10 anos. Me comprou para as tarefas domésticas. Já que eu não era competente em atividades culinárias e em nenhuma outra atividade doméstica, então, ele e sua mulher usaram isso como pretexto para me enviar para trabalhar no campo. No entanto, a verdadeira razão era que o filho de Renaldo tinha se apaixonado por mim. Assim, fui condenada por ser negra e logo por ser amada.
Ao mudar de tarefas, eu mudei de vida, as situações se tornaram mais difíceis, por isso, todos os dias, pensava na guerra, na vitória e na liberdade. Mas, eram só sonhos que não podiam ter grandes efeitos, porque eu era uma das covardes mais extremistas, e que nem mesmo fugir eu podia. Por ter medo do “quebra-negro” e dos açoites, eu andei me submetendo a todas as regras. Eu vivi vendo suicídios, fugas, homicídios e, por ser mulher escrava, andei vivendo violência sexual, e não podia mudar a situação. Se eu tivesse tido dinheiro eu teria comprado minha alforria, mas era impossível para um jovem como eu ter aquele montante de dinheiro que foi pedido.
Eu vivo trabalhando duro. Aprendi artesanato junto com as mulheres do quilombo. Eu tenho trabalhado a terra e tenho vendido um pouco das minhas colheitas, junto com meus produtos artísticos. Com o dinheiro que ganho, eu compro roupa e outras coisas para meu filho. Eu ando vivendo uma vida bem simples, crendo nos orixás e em Deus. Todos os anos, em 2 de fevereiro, eu participo duma grande cerimônia para Iemanjá. É a maior festa para mim, eu tenho um respeito muito grande por Iemanjá, porque ela tem me abençoado com a vontade de viver, e me deu um filho bem bonito.
Hoje em dia, eu estou trabalhando ainda mais duro para economizar mais dinheiro para que possa enviar meu filho na escola. Não tem escola no quilombo, eu vou ter que levar ele numa escolinha um pouco longe do quilombo. Eu vou fazer tudo o que posso fazer para ajudar o meu filho na sua educação escolar, mesmo que seja muito difícil para nós negros termos acesso à educação.
Como todos os negros, eu tenho uma ferida que ainda não cicatriza, até meu filho tem essa ferida. Para que meu filho possa embelezar a sua, ele deve saber ler e escrever, né? Mas, o mais importante para ele, é conhecer a si mesmo e viver pensando em sua origem. Para mim, ser negro já é uma reivindicação da raça, porque é uma resposta contra o negrocídio. A mesma ferida que nos faz sofrer é a que nos marca lá na testa e que esconde nossa beleza.
Agora é o tempo do trabalho, eu não vou passar toda a manhã escrevendo. Eu queria, mas não posso. Eu só posso voltar a escrever pela noite, depois que eu tiver adormecido meu filho. Se for possível, eu tentarei viver escrevendo meus rancores. Mas, a vida do dia-a-dia se torna cada vez mais urgente quando você é mãe. Até logo, meu querido diário. Vou retornar em breve para uma outra parte da minha vida.

Marie Cadette Pierre-Louis

Marie Cadette Pierre-Louis

I am a writer in becoming, ready to learn and improve. I have worked as translator, language teacher, and export assistant. I was born in Haiti, where I fell in love with languages and stories. I discovered the power of words, sounds, and whispers, while growing up in an environment surrounded by people of different ages, scars and experiences, but full of energy and passion.
Marie Cadette Pierre-Louis

Latest posts by Marie Cadette Pierre-Louis (see all)